Ao longe, nas terras que abandonei,
Escuto o rufar de tambores
A música da ilha rompe o silêncio da noite
Minha pequena jangada não esta preparada,
Embora "não estar preparada" seja talvez
O mesmo que estar
O mar é uma fusão entre
As águas doces da terra firme
E as salgadas águas do oceano
O qual me traga e me cospe
Meu inquieto coração
Percebe apenas duas cores
A se contorcer aos pés da jangada:
Vermelho e azul
O braço da península se estira
Diante de minha pálida face
E profundos olhos
Como se implorasse por minha volta
"Não há volta, e mesmo que houvesse
Por certo que não voltaria"
A festa na praia, apesar de mais
E mais distante, me parece cada vez mais nítida
"Como se meus pensamentos estivessem na ilha
E meu coração na jangada"
De repente sou golpeado na face
Por um soco salgado
Um golpe de Netuno
Água invade minha pequena embarcação
Levo certo tempo para me recuperar
E abaixo de mim, sob a luz do luar
Uma poça, dentro do barquinho,
Torvelinhos à dançar
e pequenos animaizinhos a nadar
Mais um soco na face
Aturdido não me encontro mais
Dentro de meu pequeno refúgio
Mas ao invés de terror,
Por estar por si só
Entregue as águas,
uma outra sensação
Percorre o meu corpo
E estando prestes a afundar…
"Eu sou o rei do mar"
Poema por: Artur Rinaldi
Imagem por: Whirlwind Abstract Painting - Liz W Art Gallery
quinta-feira, 22 de março de 2018
sábado, 17 de março de 2018
[POEMA] O Eixo
Antes desse poema gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito.
Às vezes fazemos a leitura de textos como uma forma de fuga, de alívio e descompressão do pensamento, com o mesmo movimento inconsciente que um fumante executa a cada cigarro.
Mas e se existisse uma forma de o o conteúdo da leitura tornar-se tão consciente que o leitor inconscientemente toma consciência de si mesmo?
Seria como um fumante que ao colocar o cigarro na boca percebe claramente cada movimento que executa, e que está apenas a atear fogo num pedaço de papel recheado de coisas e a engolir fumaça. Ele automaticamente apagaria e jogaria fora seu cigarro e nesse pequeno gesto consciente ele abandona o hábito pelo resto de sua vida.
Essa é a proposta desse pequeno poema. (Não deixar de ser fumante, mas sim de se aperceber dos sutis movimentos que envolvem a leitura).
Escrita não como fuga,
Mas sim de modo
A acordar o corpo
Trazer peso e textura
O corpo deitado, ou
O corpo sentado e encostado
A fricção dos dedos,
A distância dos olhos à escrita
A janela entreaberta, o ar que circula
A porta fechada, a solidão
O eixo homem-pensamento,
Compartilhar ideias
Transformar o distante em perto
O perto em sobreposto
Desiludir a memória, cunhar
A solida realidade
A visão do além como passado,
O futuro como presente, e o presente
Simplesmente inexistente
Texto e poema por: Artur Rinaldi
Imagem por: Anders Zorn, La Jeune Femme à la Cigarette.
Às vezes fazemos a leitura de textos como uma forma de fuga, de alívio e descompressão do pensamento, com o mesmo movimento inconsciente que um fumante executa a cada cigarro.
Mas e se existisse uma forma de o o conteúdo da leitura tornar-se tão consciente que o leitor inconscientemente toma consciência de si mesmo?
Seria como um fumante que ao colocar o cigarro na boca percebe claramente cada movimento que executa, e que está apenas a atear fogo num pedaço de papel recheado de coisas e a engolir fumaça. Ele automaticamente apagaria e jogaria fora seu cigarro e nesse pequeno gesto consciente ele abandona o hábito pelo resto de sua vida.
Essa é a proposta desse pequeno poema. (Não deixar de ser fumante, mas sim de se aperceber dos sutis movimentos que envolvem a leitura).
O Eixo
Mas sim de modo
A acordar o corpo
Trazer peso e textura
O corpo deitado, ou
O corpo sentado e encostado
A fricção dos dedos,
A distância dos olhos à escrita
A janela entreaberta, o ar que circula
A porta fechada, a solidão
O eixo homem-pensamento,
Compartilhar ideias
Transformar o distante em perto
O perto em sobreposto
Desiludir a memória, cunhar
A solida realidade
A visão do além como passado,
O futuro como presente, e o presente
Simplesmente inexistente
Texto e poema por: Artur Rinaldi
Imagem por: Anders Zorn, La Jeune Femme à la Cigarette.
[POEMA] A Máquina do Absurdo
Quando a luz tornar-se escassa
E os as vias da vida, escuras
O chão tornar-se-á mais palpável
A umidade subirá pelos pés
Encontrando calcanhares
E logo o ar entorpecerá teu corpo
Instável estrutura, agora nua
Preparada para a ação
e para esculpir a vida
Tu sentes agora os dentes
Das pedras que compõem
O chão frio, as nervuras das ruas
Os galhos ao solo
As folhas, pequenas ervas,
Cacos e barro
E cada vez mais há
Menos necessidade da luminosidade
A luz se tornara empecilho
E qualquer pequeno feixe,
Cada pequena fagulha de energia
Fere os olhos, a alma, a calma
Tu te tornaste como uma grande bateria
Uma coisa que emite luz
E energia por natureza própria
Uma pilha que necessita
Da alternância frequente dos pólos
Para funcionar
E a pilha são dois, mas ao mesmo tempo
Ela é apenas ela mesma, e também
Não o é, pois a pilha é o invisível
Intocável, impalpável
Tu és
A harmonia toda em funcionamento
O abstrato que da vida a estrutura
O conjunto que consome a si mesmo
E que alimenta a máquina do absurdo
Poema por: Artur Rinaldi
Imagens por:
Caspar David Friedrich - Mann und Frau in Betrachtung des Mondes
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