quarta-feira, 4 de abril de 2018

[POEMA] Arqueria


Estou mirando em um alvo

E sei: vou com certeza falhar
Os olhos estão fixos
O vento sopra calmamente

O arco flexionado pelo braço,
Os dedos firmes e vou errar

A platéia, com milhares de pessoas,
Que aos poucos estão indo embora

O chão é bom, firme, sólido
O barro bem batido,
Mas o alvo
Eu vou errar

Enquanto escuto a música,
O rufar dos tambores,
Minha visão torna-se turva,
Talvez haja lama em meu olhar

Atrás de mim há uma tempestade que passou,
À minha frente,
O alvo,
E depois uma montanha a ser escalada
Sei que mesmo acertando o alvo,
Após já ter atravessado a tempestade,
Eu ainda teria um monte à transpor,

Não estou abalado pela montanha,
Muito menos pelo alvo,
A platéia me cheira a ovo podre,
E não me intimida tanto,
Mas se o alvo eu acertar, sei que terei me enganado
Se eu não acertar, também mirei errado

Então estou eu aqui parado,
Olhos vidrados, flecha afiada
E enquanto houver uma multidão a me olhar
Meu arco estará flexionado,
Minha flecha apontada,
E decisão tomada


Poema por: Artur Rinaldi
Imagem por: Japanese Archery Painting - Zanshin by Hiroko Sakai


quinta-feira, 22 de março de 2018

[POEMA] Festa na Praia

Ao longe, nas terras que abandonei,
Escuto o rufar de tambores
A música da ilha rompe o silêncio da noite
Minha pequena jangada não esta preparada,
Embora "não estar preparada" seja talvez
O mesmo que estar

O mar é uma fusão entre
As águas doces da terra firme
E as salgadas águas do oceano
O qual me traga e me cospe

Meu inquieto coração
Percebe apenas duas cores
A se contorcer aos pés da jangada:
Vermelho e azul

O braço da península se estira
Diante de minha pálida face
E profundos olhos
Como se implorasse por minha volta
"Não há volta, e mesmo que houvesse
Por certo que não voltaria"

A festa na praia, apesar de mais
E mais distante, me parece cada vez mais nítida
"Como se meus pensamentos estivessem na ilha
E meu coração na jangada"

De repente sou golpeado na face
Por um soco salgado
Um golpe de Netuno
Água invade minha pequena embarcação

Levo certo tempo para me recuperar
E abaixo de mim, sob a luz do luar
Uma poça, dentro do barquinho,
Torvelinhos à dançar
e pequenos animaizinhos a nadar
Mais um soco na face

Aturdido não me encontro mais
Dentro de meu pequeno refúgio
Mas ao invés de terror,
Por estar por si só
Entregue as águas,
uma outra sensação
Percorre o meu corpo
E estando prestes a afundar…

"Eu sou o rei do mar"

Poema por: Artur Rinaldi

Imagem por: Whirlwind Abstract Painting - Liz W Art Gallery

sábado, 17 de março de 2018

[POEMA] O Eixo

Antes desse poema gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito.
Às vezes fazemos a leitura de textos como uma forma de fuga, de alívio e descompressão do pensamento, com o mesmo movimento inconsciente que um fumante executa a cada cigarro.
Mas e se existisse uma forma de o o conteúdo da leitura tornar-se tão consciente que o leitor inconscientemente toma consciência de si mesmo?
Seria como um fumante que ao colocar o cigarro na boca percebe claramente cada movimento que executa, e que está apenas a atear fogo num pedaço de papel recheado de coisas e a engolir fumaça. Ele automaticamente apagaria e jogaria fora seu cigarro e nesse pequeno gesto consciente ele abandona o hábito pelo resto de sua vida.

Essa é a proposta desse pequeno poema. (Não deixar de ser fumante, mas sim de se aperceber dos sutis movimentos que envolvem a leitura).

O Eixo

Escrita não como fuga,
Mas sim de modo
A acordar o corpo
Trazer peso e textura

O corpo deitado, ou
O corpo sentado e encostado
A fricção dos dedos,
A distância dos olhos à escrita

A janela entreaberta, o ar que circula
A porta fechada, a solidão
O eixo homem-pensamento,
Compartilhar ideias
Transformar o distante em perto
O perto em sobreposto
Desiludir a memória, cunhar
A solida realidade

A visão do além como passado,
O futuro como presente, e o presente
Simplesmente inexistente

Texto e poema por: Artur Rinaldi


Imagem por: Anders Zorn, La Jeune Femme à la Cigarette.


[POEMA] A Máquina do Absurdo


Quando a luz tornar-se escassa
E os as vias da vida, escuras
O chão tornar-se-á mais palpável

A umidade subirá pelos pés
Encontrando calcanhares
E logo o ar entorpecerá teu corpo
Instável estrutura, agora nua
Preparada para a ação
e para esculpir a vida

Tu sentes agora os dentes
Das pedras que compõem
O chão frio, as nervuras das ruas
Os galhos ao solo
As folhas, pequenas ervas,
Cacos e barro

E cada vez mais há
Menos necessidade da luminosidade
A luz se tornara empecilho
E qualquer pequeno feixe,
Cada pequena fagulha de energia
Fere os olhos, a alma, a calma

Tu te tornaste como uma grande bateria
Uma coisa que emite luz
E energia por natureza própria
Uma pilha que necessita
Da alternância frequente dos pólos
Para funcionar

E a pilha são dois, mas ao mesmo tempo
Ela é apenas ela mesma, e também
Não o é, pois a pilha é o invisível
Intocável, impalpável

Tu és
A harmonia toda em funcionamento
O abstrato que da vida a estrutura
O conjunto que consome a si mesmo
E que alimenta a máquina do absurdo

Poema por: Artur Rinaldi


File:Caspar David Friedrich - Mann und Frau in Betrachtung des Mondes - Alte Nationalgalerie Berlin.jpg
Imagens por: 

Caspar David Friedrich - Mann und Frau in Betrachtung des Mondes




quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

[POEMA] O Farol

Se hoje sinto pena
Da criança que um dia fui
É por que me tornei um ingrato

Se olho com pesar
Os dias que uma vez vivi
É porque hoje me sinto incapaz

Se julgo todos aqueles
Que me tocam de alguma maneira
Talvez eu guarde deles
Mais do que guardam de mim

Um salto é necessário
Para sacodir a memória
Tirar a poeira, entrar no prumo
Tomar um rumo

A criança que um dia fui
Na verdade, talvez eu nunca tenha sido

E ela não passa de um pequeno
E sabio guia, que norteia meus passos
E mostra, que o sinal esta aberto
E que, para sempre, estara ao meu lado
Como um farol que ilumina
As ondas dos meus pensamentos

Texto por: Artur Rinaldi


Imagem por: Leonid Afremov - By the Lighthouse

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

[POEMA] A Justa

Uma tortuosa mão agarra
Com furor, um místico artefato

Com a força de uma clava, prestes
A ser cravada na fera
E com o encanto da espada, prestes
A ser retirada da pedra
Desenha teu rumo,
As margens da alva planície,
Ora fluido ora estagnado,
Estático ou compassado

O artefato briga, bate e
Cospe no chão, logo
As linhas são engolidas
E brigam com os tão pouco
Ou nunca notados, mas importantes,
Espaços em branco
Que dão sentido a mão que toca
o limitado campo de batalha

Mas essa é uma batalha
Que vale a pena ser trava,
É uma justa entre adversários desiguais
Mas que perfeitamente se completam

Há sangue espalhado,
Mas agora também há
Harmonia, ritmo, cor
Nas planos nunca antes imaginados

Texto por: Artur Rinaldi



domingo, 7 de janeiro de 2018

[POEMA] Do Galho ao Chão

Fujo de mim mesmo
Como se fosse eu a cauda
Peluda de um cachorro confuso
Que torna em círculos

A fuga que vem da memória
Da alegria, que um dia, esta diz,
Ter sido vivida
Mas também da negação
Do sonho que anula a si mesmo
Com perfeita ignorância

Como a esfera que cirscunscreve
A própria e impossível delimitação

É um emaranhado difícil de explicar
Pois é o mesmo que a folha
Tentar rascunhar a sua suave queda
Do galho seco da vida
Em direção as bocas ávidas
Do solo antes distante

E eu me resolvo aqui, não com uma resposta
Mas com mais uma, e última pergunta:
Não seria a vida,
A distância do galho ao chão?

Texto por: Artur Rinaldi