sábado, 17 de março de 2018

[POEMA] O Eixo

Antes desse poema gostaria de fazer um pequeno comentário a respeito.
Às vezes fazemos a leitura de textos como uma forma de fuga, de alívio e descompressão do pensamento, com o mesmo movimento inconsciente que um fumante executa a cada cigarro.
Mas e se existisse uma forma de o o conteúdo da leitura tornar-se tão consciente que o leitor inconscientemente toma consciência de si mesmo?
Seria como um fumante que ao colocar o cigarro na boca percebe claramente cada movimento que executa, e que está apenas a atear fogo num pedaço de papel recheado de coisas e a engolir fumaça. Ele automaticamente apagaria e jogaria fora seu cigarro e nesse pequeno gesto consciente ele abandona o hábito pelo resto de sua vida.

Essa é a proposta desse pequeno poema. (Não deixar de ser fumante, mas sim de se aperceber dos sutis movimentos que envolvem a leitura).

O Eixo

Escrita não como fuga,
Mas sim de modo
A acordar o corpo
Trazer peso e textura

O corpo deitado, ou
O corpo sentado e encostado
A fricção dos dedos,
A distância dos olhos à escrita

A janela entreaberta, o ar que circula
A porta fechada, a solidão
O eixo homem-pensamento,
Compartilhar ideias
Transformar o distante em perto
O perto em sobreposto
Desiludir a memória, cunhar
A solida realidade

A visão do além como passado,
O futuro como presente, e o presente
Simplesmente inexistente

Texto e poema por: Artur Rinaldi


Imagem por: Anders Zorn, La Jeune Femme à la Cigarette.


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