quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

[POEMA] O Farol

Se hoje sinto pena
Da criança que um dia fui
É por que me tornei um ingrato

Se olho com pesar
Os dias que uma vez vivi
É porque hoje me sinto incapaz

Se julgo todos aqueles
Que me tocam de alguma maneira
Talvez eu guarde deles
Mais do que guardam de mim

Um salto é necessário
Para sacodir a memória
Tirar a poeira, entrar no prumo
Tomar um rumo

A criança que um dia fui
Na verdade, talvez eu nunca tenha sido

E ela não passa de um pequeno
E sabio guia, que norteia meus passos
E mostra, que o sinal esta aberto
E que, para sempre, estara ao meu lado
Como um farol que ilumina
As ondas dos meus pensamentos

Texto por: Artur Rinaldi


Imagem por: Leonid Afremov - By the Lighthouse

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

[POEMA] A Justa

Uma tortuosa mão agarra
Com furor, um místico artefato

Com a força de uma clava, prestes
A ser cravada na fera
E com o encanto da espada, prestes
A ser retirada da pedra
Desenha teu rumo,
As margens da alva planície,
Ora fluido ora estagnado,
Estático ou compassado

O artefato briga, bate e
Cospe no chão, logo
As linhas são engolidas
E brigam com os tão pouco
Ou nunca notados, mas importantes,
Espaços em branco
Que dão sentido a mão que toca
o limitado campo de batalha

Mas essa é uma batalha
Que vale a pena ser trava,
É uma justa entre adversários desiguais
Mas que perfeitamente se completam

Há sangue espalhado,
Mas agora também há
Harmonia, ritmo, cor
Nas planos nunca antes imaginados

Texto por: Artur Rinaldi



domingo, 7 de janeiro de 2018

[POEMA] Do Galho ao Chão

Fujo de mim mesmo
Como se fosse eu a cauda
Peluda de um cachorro confuso
Que torna em círculos

A fuga que vem da memória
Da alegria, que um dia, esta diz,
Ter sido vivida
Mas também da negação
Do sonho que anula a si mesmo
Com perfeita ignorância

Como a esfera que cirscunscreve
A própria e impossível delimitação

É um emaranhado difícil de explicar
Pois é o mesmo que a folha
Tentar rascunhar a sua suave queda
Do galho seco da vida
Em direção as bocas ávidas
Do solo antes distante

E eu me resolvo aqui, não com uma resposta
Mas com mais uma, e última pergunta:
Não seria a vida,
A distância do galho ao chão?

Texto por: Artur Rinaldi




[POEMA] As Cicatrizes do Silêncio

O mundo carrega o fardo,
O fardo do peso vazio do mundo
Sem ter a quem lastimar,
Haja visto que, o mundo
Carrega o fardo do peso
Do vazio do mundo

A fronteira que encontra,
É um mero capricho,
É a sua caneta
A riscar um obstáculo

Vê só, mundo,
Tu não és tão hipócrita assim,
A caneta que usa é a culpada
Pelo caminho malogrado

Um traço ora torto a esquerda
Ora torto a direita, mas sempre em frente
Com vã ironia, das coisas do mundo
Que mesmo ei-lo sendo mundo
Ainda o prendem

Teu professor caduco,
É um jovem aprendiz,
Que por entre sorrisos e abraços,
Da tristeza ao cansaço,
Do sapato apertado
Com silêncio o diz
E no teu corpo escreve
As marcas do mundo
Que a todos pertencem

Texto por: Artur Rinaldi


Imagem por: Kinga Britschgi

[POEMA] O Vale da Alma

Sou como um carneirinho solitário,
Por entre pastos tão verdes,
Escondidos por entre montanhas tão altas,
Guardado por um vale profundo,
Onde somente o céu pode tocar

Em meu vale há: macieiras, laranjeiras,
Frutas do conde, pitaias azuis
Salgueiros donde brotam romãs e bananas
E árvores que vertem areia

Por aqui a vida é calma,
e fora poucas borboletas
Que por aqui caminham,
Não há outra viv'alma
Que possa ajudar a
Tirar-me o sossego

No vale profundo nunca há dia
Nunca há noite
O sol e a lua caminham como inimigos
Escondidos nas bordas
Refletindo seu pouco brilho
Sem nunca mostrarem a face

Tudo é sublime aqui,
O céu reflete a alma,
e o chão impele a calma
mas parece que,
Mais do que um carneiro
Eu sou apenas um estrangeiro

Texto por: Artur Rinaldi


Imagem por: Looking Down Yosemite Valley California by Albert Bierstadt

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

[POEMA] As Asas de um Esquilo

Um pequeno esquilo
Escala uma imensa árvore,
Não pela primeira vez, pois
Já está há muito familiarizado
Com cada um de seus troncos,
Galhos e fendas na madeira

Um certo dia, ele encontra algo novo
Que nunca antes havia feito parte de seu mundo
Um pequeno pássaro, na copa da árvore
Que estava fazendo um ninho

Primeiramente se faz nervoso
E medo percorre-lhe o corpo, mas
Rapidamente se recompõe
E a curiosidade se torna maior

Com o passar de poucos dias,
Pode observar que além do ninho
Havia um ovo e,
mais tardar um filhote...

Certo dia havia uma ave pequena
Que voava à procura de um lar
Esta ave pousou nos galhos
De uma imensa árvore

De início teve medo,
Pensou em todos os perigos
Que uma árvore daquele tamanho
Poderia abrigar
Mas a necessidade e a vontade
eram maiores e
Fez então, da árvore,
Sua moradia

Dia após dia montava seu ninho
Até que uma pequena criatura surgiu,
Mas antes que pudesse reagir,
Essa desapareceu

Pouco tempo depois,
Botou um ovo,
E logo mais nasceu
Um pequeno ser...

Certo dia houve uma semente
E essa semente estava ansiosa
Cheia de medos por conta das
Incertezas da vida
E também pois acabara de ser ser
Arremessada do bico de pássaro ao solo
Desconhecido, muito longe
das terras de onde vinha

Muito tempo levou, mas
A semente brotou, se firmou
Desbravou o solo desconhecido
Com profundas raízes
Rompeu terra, areia,
Argila e pedra

Mas havia algo misterioso,
Que ela sabia ser seu destino
E apenas por isso,
Decidiu prosseguir

Mil anos passaram, a árvore
Agora era apenas árvore, pois
Nela havia de tudo quanto
Poderia haver:
Medo, alegria, angústia, felicidade
Havia pássaros algozes
Voando por cima de sua copa
Mas também havia um casal
Incomum, que em pouco tempo
E,  inevitavelmente,  a árvore tratou de unir:
Um esquilo com asas e um pássaro com patas,
Que dela fizeram sua moradia

Texto por: Artur Rinaldi


Imagem: Prince of Tuarts-Ancestor Tree