sexta-feira, 29 de setembro de 2017

[POEMA] Promessa ao Mar

Comprometo-me, comigo mesmo,
A ser leal com meus sonhos,
Designar todo o tempo necessário
Para tornar a mim mesmo
Difundir o impalpável desejo
Da curiosidade da vida terrena,
E também a momentânea abstrata

E a seguir, de mar em mar,
Sempre na proa de meu navio,
Com mãos firmes,
mas ao mesmo tempo
maleáveis, silenciosas e sutis
De modo a poder sempre escutar
Da quebra das ondas
Ao gorjear das gaivotas,
Tão distante quanto estiverem
Em meio a nuvens espessas
Ou pousadas no timão
De minha embarcação

E um dia ei-me de com terra encontrar,
E a tempestade não há de, por muito, prolongar

Caso um dia o vento em meu rosto soprar,
E como os braços de minha donzela
Me abraçar
Ainda assim não irei te abandonar
Nostálgica tempestade,
Que por tanto me amparou
E muito menos o mar,
Que antes me salgou,
Mas agora me ensina,
A tornar-lhe meu abrigo

E portanto, quando à terra retornar,
Prometo voltar sempre ao mar

-Artur Rinaldi


Créditos da imagem: Seagulls Over the Ocean Waves - Taylor

[POEMA] Da Matéria ao Espaço

O corpo levanta,
A alma lhe persegue
E segue por quanto
Ele caminhar
Retira-se dos aposentos
Em direção ao pátio vítreo

Alma oca, corpo inteiriço

Uma borboleta pousa
Em seu ombro nu
O corpo repele,
A alma intercede

Segue floresta adentro,
O corpo já suado, cansado,
Enfadado, e a alma
Límpida, cristalina
Escuta os sinos longe a soar

Pedregulhos no caminho
Machucam os pés
Pedregulhos no caminho
Tocam e acariciam a alma
O ar espesso e úmido
Afoga o corpo
Mas encharca a alma
em alegrias e contentamento

Segue agora de volta a sua casa
Corpo e alma,
Um vazio, o outro vasto

O que para um fora uma jornada
Para o outro uma dança,
Mas aos dois uma grande aventura

O corpo se deita, a alma persiste
Insiste em ver, mas o espaço
O corpo não pode ver e nem tocar,
E já sendo assim, nem a alma pode,
Aquilo que o corpo não toca,
viver

Corpo e alma agora uno
Perfeitos, ligados
Moldados pelo intocável vazio

- Artur Rinaldi


Créditos da imagem: Soul of Dance by Narendra Sharma


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

[POEMA] A Lamúria do Vento

Sou como uma estrela,
Como o Sol,
O Sol na escuridão profunda
Eu ilumino teu caminho,
Mas eu mesmo não
me benefício de minha própria luz

Sou como um farol
Numa ilha distante
Eu toco a tua retina
A mil nós
Sou guia dos teus passos
Mas eu mesmo não tenho pés

Sou como uma bússola,
Atraída pelo magnetismo
Posso te levar a qualquer lugar
Mas não tenho significado
para mim mesma

Sou como a caravela,
Com as velas içadas ao vento
Te levo e te engano,
Não sei para onde vou
Nem de onde partir

Sou como o vento,
Venho de longe,
Tem empurro, te trago
Venho com boas e más notícias
Mas não sei o que sou
Nem para onde vou,

E tu te enganas,
Se achas que faz bem
em me seguir, pois

apenas
sou,
apenas
vou.

-Artur Rinaldi



Créditos da imagem: A Favorable Wind by Paul Bond

domingo, 24 de setembro de 2017

[POEMA] Claridade

Brilho natural
De natureza espontânea
Da pele alva, do dente doente
Escárnio, dilúvio, corrente
Torpe sensação ascendente

Brilho mordaz, de um tipo fugaz
Que não entrega, e nem esconde
Se cala, mas responde
Dos traços já aleijados
Do ar pesado

Brilho da razão embotada,
Gasta, estagnada
Uma pequena lagoa,
Cheia de animaizinhos
Um pequeno capricho

Brilho de horror,
Do abatedouro da paz
Do tudo e do abismo
Da aurora que não se cansa
Mas sempre mansa

Brilho astuto, maduro,
Do buda das mil mentes
Que arde, e nunca se rende
Sempre assim,
Caminho do oriente

Brilho anil, da estrela
Que era, pois partiu,
Da noite, agora profunda,
Natural, mordaz e embotada
em horror

-Artur Rinaldi




Créditos da imagem: Arise Shine by Gary Rowell


[POEMA] Vertigem do vértice

Aonde irão me levar,
Essas ondas arredondadas
Assimétricas, livremente moldadas
Rumo a via do leite
Translúcidos e amargos
Anéis de ar
Em dedos amadeirados
Retorcidos vãos esculpidos
A sombra do luar

Ilhas d'água que refletem no ar
Tragam a brisa, e os ventos do amanhã
Tão logo quanto puder,
Traga também o orvalho
Para sorver alegria

Traz-me também a ti
Eleve o suor,
Em emaranhados fios de cabelo
Tece a alma

Entre este e outros mundos,
Entre esta e outras tortuosas curvas,
O elíptico transfigura as redomas
Que enobrece a vã ilusão

Do senhor ao servo
Do céu ao féu
Da ideia à derrota
Da fuga da ação

E o pé que toca
A nua poesia
Numa batida do coração
No terremoto pós sermão

Troquemos o vidro translúcido,
Pela água pluvial
Não tão límpida, mas mesmo assim
Como um cristal cheio de vida
E vitrifiqueis a tua essência
Tira do brejo teus calcanhares
Coloque-os na lama,
E depois na terra,
Na pedra fria, tomada pelo limbo
Há de pisar, no chão de sal
Na brasa da terra
Na areia da praia,
E na praia do deserto

Pisa e galga-os, firme
Então já podes ver,
Tudo é vazio, a tua liberdade,
Antes moldada ilusão
Põe-te, agora, a escalar
a escadaria
A escadaria de ar

-Artur Rinaldi



Créditos da imagem: Untitled by Lee Bontecou 1960 | Chicago, Collage and Paintings

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

[POEMA] Bagagens

Hoje, me desfiz
de minhas bagagens

Estava na estação,
Eram quinze para as dez
E, já conseguindo ouvir
O metálico som dos motores,
Que anunciava o início
De mais uma jornada

Optei pelo que julguei mais sensato,
Larguei a bagagem,
Tirei do bolso um pedaço de papel
E me pus rapidamente a escrever:
"Vá com Deus"

Bem, é como eu já disse,
Hoje, me desfiz de minhas bagagens

Optei por uma outra viagem

E já estava tudo certo
Para mais uma de minhas viagens:
Roupas, sapatos, um lanchinho.

Optei por um outro caminho

Coloquei o papel em cima da mala e
Embarquei-a no bagageiro
Deixei o trem me levar,
Mas do lado de fora,
E assim que não pude mais vê-lo
Eu sabia que havia chegado.
A vazia estação, onde antes, eu partiria
agora se tornara meu destino

-Artur Rinaldi




Créditos da imagem: Two Suitcases With Financial Statements by Tilly Strauss