Há um salão de tamanho infinito,
Cercada por paredes indefinidas
Cobertas por nuvens e
Um piso feito de espelhos
Nesse palco, já descrito,
Há também uma criança,
Totalmente despida e
Com o o corpo formado de energia
Nessa mesma sala há uma escada,
E veja só! A criança já a encontrou,
E como parte de uma brincadeira
Se põe a escalar os degraus
A criança escorrega e cai,
É projetada contra o chão
Já no primeiro degrau,
E chora arduamente
Agora, depois de um tempo
A criança já encontra
O primeiro patamar,
Nesse lugar ela sente
Algo que chama de medo
Continua a subir,
Meio perdida, e guiada
Por ilusão
E depois do medo, ela não percebe,
Mas já não é mais criança
O jovem sobe mais devagar e
Com receio, não tão ativo,
E com poucas, mas
Muito muito doloridas quedas,
Nota, somente agora,
que não é mais criança
Já agora se encontra
No próximo patamar,
E tão tardiamente,
Percebeu-se não mais
Como criança, já deixa de ser jovem,
Sente algo que chama de ansiar,
E torna-se adulto,
Mas sem tomar plena ciência
O adulto constrói corrimãos,
E tem muito receio de subir,
Aliás, o adulto não quer subir!
É medroso, rancoroso, orgulhoso,
Diz que já basta,
Que chegou onde poderia,
Mas olhando para trás vê o nada,
Não há mais o chão,
Há apenas alguns poucos
degraus visíveis, e névoa
Que cobre todo o resto,
De baixo a cima
Já não tem certeza se algum dia
Ouve o céu ou o chão
Não lembre-se do sol ou da terra
E não pode chorar, pois
Suas lágrimas secaram,
Restou o vazio, e as pernas bambas,
Mas o vazio tornou-se maior que
O medo de ficar parado
E relutante pisa no primeiro degrau,
Coberto totalmente de musgo.
O pé escorrega, a mão segura
No frágil corrimão,
Que se quebra,
E ele despenca e cai ao chão,
Bate o corpo, violentamente,
E as vísceras são expostas,
Está totalmente desfigurado.
O piso é feito de um mosaico,
Composto por espelhos quebrados
Além do corpo, há um piano,
Uma mesa de estudos,
Uma cama, um pai e uma mãe
Tudo coberto de lodo,
Na sala infinita
As paredes imaginárias são
Formadas por tempestade
E o corpo apodrece
Mas em algum momento
o corpo entra em trabalho
De parto, e por entre
O intestino estragado,
E o estômago estourado
Aparece um bebê
Engatinhando para fora,
Como vítima de uma
Natural cesariana
O bebê consome a carne do corpo
E logo se torna uma criança
A criança olha ao seu redor,
Vê a escada e, sem se iludir
Sequer por um único pensamento,
Põe se a escalar
Logo cai, chora,
E volta
E vê um patamar,
Alcança o patamar
O patamar é formado de espelhos
Mas não se vê refletido em
Nenhum deles
Algo toma conta de seu corpo,
E
Não sabes se tem um corpo
Sólido,
E
a criança de carne torna-se
Um outro tipo de humano,
Não um jovem, adulto ou velho,
Pelo que poderíamos julgar,
Mas um humano de energia
Bom agora não há nem mais a escada,
A sala, o palco, o salão,
Nem corrimão;
Nem a criança, o jovem,
O velho ou o adulto,
Não há nem mesmo a coisa
E razoavelmente,
não há nem mesmo o nada.
-Artur Rinaldi
Créditos da imagem: Greek Stairs, oil painting on canvas by Yvonne Wagner. Making boring, beautiful.

Nenhum comentário:
Postar um comentário